quarta-feira, 1 de abril de 2015

Apontamentos sobre o crack e as políticas públicas.

Recentemente vi - não assisti! - na TV Legislativa Potiguar uma Audiência Publica para a criação da "Rede Estadual de Enfrentamento ao Crack e outras drogas." O de sempre: parlamentares, representantes da OAB, entidades de luta ou apoio aos dependentes químicos da sociedade civil organizada, representantes acadêmicos, técnicos dos CAPS, servidores da assistência social e saúde, representantes das forças de segurança e do judiciário - algumas poucas lideranças populares entre representantes de comunidades terapêuticas cristãs. Esses são os interlocutores privilegiados no debate para a formulação de políticas públicas para os dependentes químicos e a sociedade. Seria bastante positiva a iniciativa, se antes existisse interesse e compromisso político e social com a questão, apreço pelo dialogo e a participação popular, não sendo notoriamente reacionária, elitista, profilática, repressora, preconceituosa, excludente, autoritária. O debate acerca do crack, quando existe na política é pautado e conduzido exclusivamente por parlamentares, setores acadêmicos, técnicos de saúde, forças de segurança e o judiciário - excluindo deliberadamente os protagonistas desse processo, os dependentes químicos, usuários e outros envolvidos nas tramas do vício.

O intelectual e pesquisador da UFRN não deixa duvidas: "é preciso traçar um mapa do uso e o perfil do usuário de crack no RN." Duas constatações se evidenciam: primeiro que a despeito das políticas de atendimento no Estado, inexistem informações sobre os usuários e dependentes químicos e, portanto, trata-se de delinear um perfil de modo a sistematizar o atendimento. Segundo e em decorrência disso constata-se o abismo de distancia entre a realidade das ruas e o atendimento publico - portanto, a partir de que parâmetros é formado o técnico desse serviço? Como são articuladas as políticas públicas - saúde, assistência, jurídica? De que forma são avaliadas?  Como é possível tratar dependência química sem acompanhamento clinico, psicológico e/ou psiquiátrico?

O CAPS-AD em Natal é emblemático a esse respeito. Chama a atenção a entrada, a presença ostensiva de GCMs. Afixada na porta de entrada, uma oração cristã e na sala de espera a televisão sintonizada na Globo. Saí da sala de espera e fui pra área livre nos fundos - local preferencial do café e fumantes. Muitos jovens e homens de meia idade. Os assuntos giravam em torno da miséria ocasionada pelo vício em álcool e crack. Relatos de prejuízos físicos, mentais, emocionais e, sobretudo, materiais. Ouvi um senhor dizer que buscava a sua aposentadoria, posto que estava se "tratando" ali há pelo menos três anos. Comentou sobre a exploração e a violência em comunidade terapêutica evangélica: "só te fazem cavar o chão, carpir a terra, orar toda hora e aí de quem pegar um coco sem autorização!" 

Estive nesse CAPS-Ad em janeiro ultimo. Quando fiz a triagem, fui atendido pela psicóloga Renata. Na entrevista, relatei-lhe que tinha contato com as drogas - álcool, tabaco e maconha - desde os 13 anos, mas, que fazia uso do crack - mesclado - há uma década. Relatei ainda que já havia frequentado CAPS em São Paulo e São Vicente (SP) e que os conhecia em Sorocaba (SP) e Rio de Janeiro. Expliquei-lhe sobre as minhas expectativas, diante das minhas experiências e conhecimentos, bem como sobre as minhas criticas e o meu livro a respeito do assunto. Por fim, contei-lhe sobre a minha ultima recaída, a insônia crônica, ansiedade, depressão e a tentativa recente de suicídio. Renata anotou tudo e limitou-se a dizer que as "decisões lá eram avaliadas pela equipe", por isso não poderia me prescrever nada do que eu solicitava naquele momento - terapia e atendimento psiquiátrico -, senão me encaminhar para as atividades disponíveis, aquela que ela julgava mais "apropriada" para o meu perfil - "Biblioterapia." Ela não me encaminhou  pra qualquer exame: clinico, psicológico ou psiquiátrico. Ela não se deu o trabalho de me explicar no que consistia essa atividade e eu não a questionei, resignei-me a aceitar. 

Renata e as demais pessoas da equipe eram muito parecidas - todas jovens, brancas, asseadas, bem vestidas, polidas, frias. Tanto quanto o esforço deliberado de homogeneizar os usuários do serviço era a postura pasteurizada da equipe. O caráter profilático pode ser visto em tudo - dos trajes a decoração, do discurso ao mobiliário, da postura a técnica. Tenho o hábito de andar pelos locais que frequento, assim, pude observar a postura a distante, apática, burocrática, institucionalizada, homogeneizada e a cumplicidade corporativa que caracteriza a equipe técnica. Tudo revelava isso: o olhar que oscilava entre a indiferença e a soberba, o discurso demasiadamente técnico-burocrático, a postura sóbria e altiva. Por sua vez, entre as técnicas de enfermagem e as atendentes da copa e limpeza prevalecia a grosseria e a truculência no trato com os usuários - ignora-los era excesso de cortesia. 

A "biblioterapia" consiste em mera atividade de leitura. A "mediadora" da oficina era outra psicóloga. Cerca de 30 pessoas numa sala - apenas 3 mulheres -, ela e uma técnica de enfermagem. Após a breve apresentação individual dos presentes, iniciou a leitura do texto. Leu durante cerca de 15 minutos ininterruptos - a atividade durava uma hora. Alguns olhavam para o nada - extasiados, entorpecidos, indiferentes -, outros estavam tombados na carteira, uns poucos se esforçavam em ouvir atentamente. Grosso modo, o texto era um relato sobre a infância de alguém no interior, suas impressões rústicas sobre a natureza e as relações sociais, mediadas pela pobreza e a sobrevivência. Segundo ela, o "objetivo" era "resgatar bons sentimentos" e "boas lembranças". Tudo rigorosamente raso, enfadonho, superficial, tosco, pueril. Ao final, alguns comentaram que haviam se identificado, com esta ou aquela passagem, porem, tudo restrito a uma "reflexão" mediada por comentários da ordem do senso comum, permeada, inclusive, por ideias preconceituosas e reacionárias sobre as virtudes do individualismo puritano e do labor que arrastam muitos a exploração, a exclusão e as margens da sociedade. Por fim, encerrou a atividade sem sequer mencionar a obra ou o autor para quem quisesse pesquisar e se aprofundar. 

Na semana seguinte o texto era sobre uma moça de poucos atributos físicos atraentes e bom coração. Mesmo roteiro, mesmo script. Um homem relatou que conhecia uma pessoa assim, que inclusive o havia ajudado, numa situação recente em que estava jurado de morte por traficantes do seu bairro. Os comentários da mediadora foram estritamente burocráticos, limitando-se as virtudes contidas no texto, eximindo-se de questionar, aprofundar-se e/ou oferecer encaminhamentos em relação a denuncia do usuário. Pensei na realidade das ruas de Natal, nas violências, indiferença, privações, misérias e omissões cotidianas enfrentadas pelos dependentes químicos. Nunca mais voltei lá, nem pretendo - sequer havia "lista de presença" (como acompanhar o "tratamento" sem controle e registro?), tampouco alguém me procurou para saber porque não retornei ou se estou vivo -, muito embora tenha clareza quanto a responsabilidade publica em relação a essa tragédia e esteja disposto apesar das minhas condições, a denuncia-la e enfrenta-la. 


Um comentário:

  1. Há misto de desinformação e equívocos contribuindo em toda política nacional sobre Álcool e Drogas no mundo. Mas há avanços significativos..., porém essa conduta verticalizada tratada nesse artigo, evidência, o disfarce no tratamento de um grave problema em nosso país. http://jornalhajafigado.blogspot.com.br/

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